terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Resenha: O mulato, de Aluísio Azevedo



Raimundo se forma em Direito, retorna a São Luís, hospeda-se na casa do tio Manuel Pescada; descobre a sua condição filial e inicia um romance com a prima Ana Rosa, filha de Manuel. A avó de Ana Rosa reforça com crueldade o preconceito contra esse personagem recém-chegado. Aliando-se à figura do cônego Diogo, tentou impedir a relação amorosa, e Manuel Pescada revela à filha a condição de Raimundo. Acontece um incidente: a gravidez de Ana Rosa, que espera um filho de Raimundo, transforma-se numa ocasião para fuga, que resultou na morte de Raimundo. A narrativa termina com Ana Rosa casada com o assassino de Raimundo.
Na segunda metade do século XX, os adeptos às novas ciências e à visão materialista fizeram uma revolução no pensamento e no comportamento humano. Começaram a observar a realidade de uma forma mais objetiva e crítica. Essa visão realista persistiu por mais tempo, sendo utilizada por escritores naturalistas.
A semelhança entre essas duas escolas, a realista e a naturalista, é perceptível quando elas tratam da rejeição ao subjetivismo e à idealização romântica, bem como o desejo de retratar objetivamente a realidade e criticar a sociedade do seu tempo, a visão cientificista e determinista do ser humano, sendo esta ultima muito presente na obra de Aluísio Azevedo. Há também uma outra semelhança realista-naturalista que é o tratamento dado aos grupos sociais, uma vez que os escritores dessas épocas não delineiam apenas os indivíduos em si. Não obstante, a diferença entre o Realismo e o Naturalismo é que o primeiro trata da classe média e da pequena burguesia, preocupada com a posição social; enquanto o segundo trata das camadas populares a margem da ascensão social.
Uma outra diferença a ser acrescentada relaciona-se à composição do enredo, que, no Naturalismo, beira a vulgaridade e ao mau gosto. Diferencia-se notavelmente o linguajar utilizado, que o naturalista utiliza de forma erudita, comparando com as classes populares, desigualmente a maneira trabalhada pelos realistas. Além disso, os escritores dessa época descreviam de forma minuciosa a imagem a ser trabalhada no enredo; entretanto, de forma diferente a dos românticos, extraindo da natureza imagens degradantes e fazendo uma comparação a elementos presentes na realidade, como ocorre muito nos romances de Aluísio.

O Mulato: uma visão social mais de 120 anos após a abolição da escravatura

Nesse livro, Aluísio Azevedo perpetra uma severa crítica a sociedade maranhense de então, que se assemelha com a atual em alguns pontos. Para isso, Aluísio descreve, de forma meticulosa, vários tópicos da sociedade, como o próprio meio ambiente; os aspectos filológicos, os antropológicos e os políticos; e, enfim, se faz uma comparação com o protagonista do romance.
Ao descrever o espaço, o escritor apresenta a mesma São Luís atual: calorenta, abafada e com certos cheiros sebosos e sujos de sempre, como se observa nessa passagem: “A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor” . Esta é a São Luís antiga que apresenta o “Reviver”, cujos costumes dos moradores, que vivem no entorno daquele bairro, não se alteraram, como se percebe nessa descrição:

Da Praia de Santo Antônio enchiam toda a cidade os nos invariáveis e monótonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris e as tetas opulentas. 

Observa-se nesses comportamentos algumas expressões de linguagem, que ainda persistem atualmente na boca das pessoas mais velhas. Expressões como “moleque”, “pândega”, “basbaque”, “faniquito”, entre outras. Naturalmente, por serem típicas de um segmento social, são palavras que aspiram a desaparecer, visto que são termos muito arcaicos.

- Que conheçam o seu lugar! [...]
-[...] você queria seu Manuel que a Dona Anica beijasse a mão de um filho da Domingas? Se você viesse a ter netos queria que eles apanhassem de um professor mais negro que esta batina? Ora, seu compadre, você às vezes ate me parece tolo! 

Essa postura social do ludovicense do século XIX ainda é conservada em pleno século XXI de maneira rançosa. Explica-se: nossos colonizadores portugueses deixaram como herança e ainda se perpetua até hoje através do branqueamento. Como no século XIX, ainda hoje as pessoas são consideradas, ou não, a partir da cor da pele e só será aceita na sociedade se cultivar relações familiares com o poder. Nesse aspecto, São Luís continua bem provinciana, embora continue bem hospitaleira como no século XIX.
Mesmo que num caráter implícito, Aluísio não se descuida do aspecto político, mesmo que não seja o forte do romance. Dá para se perceber, no entanto, que a política era elitista e, por conseqüência, favorável a escravidão. Algo que, de certa forma, se encontrava guardada no inconsciente do maranhense.
No decorrer do romance, Aluísio Azevedo faz de Raimundo seu próprio “alter ego”. Como qualquer outro mulato de sua época, sofreu na pele o escárnio e a perseguição que são dirigidos a aqueles que querem ser “profetas em sua própria terra”. É, portanto, uma obra guardada no inconsciente do maranhense.
Aluísio Azevedo foi mais que um escritor naturalista. Pode-se afirmar que o víeis naturalista presente em sua obra – “O Mulato” – aborda o estudo das características, que transcendem o naturalismo, permitindo ver em Aluísio não apenas o autor que ver a realidade, mas o crítico dessa mesma realidade. E é como crítico que se desvela por inteiro em seu excelente romance, cuja repercussão não se restringiu à metrópole da corte – o Rio de Janeiro.
São tantas as características naturalistas-realistas contidas nessa obra que, até para demarca-las, encontra-se uma certa dificuldade, uma vez que toda ela projeta uma realidade abjeta, mas que não modifica as nuances dadas aos personagens que carregam os mais mesquinhos sentimentos que são retratados pelo autor de maneira adequada, sem nenhum propósito de chocar o leitor. Há, entretanto, um compromisso e disso ele não abre mão em manifestar as contradições de que todos nós somos feitos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Marco do tempo


A preocupação imensa com as coisas da vida nos faz pensar no tempo. Como ele poderia ser útil para a sua realização. Nem todos acreditam que o tempo é algo capaz de mover montanhas, de mudar os fatos dos acontecimentos. Ludibriam-se aqueles que acham que não há importância na verdade das coisas, em sua transparência, pensando que esta é mera futilidade.
Enganam-se aqueles que acham que não há vantagens em aproveitar o tempo. Precisa-se de força de persuasão para acreditar que cada tempo tem seu marco para as coisas e estas se tornam precisas mediante suas modelações. Temos fome e não saciamos as nossas necessidades. Por falta de tempo. 
Acreditar que não pudéssemos ser aquilo que fantasiamos é pensar que não se pode mais com as nossas próprias forças. Pensar que já passara tempo nos faz perdê-lo ainda mais. E julgar desnecessário o apreço por cada momento nos modela cada vez mais reles. E perceber que as coisas mais findas podem realmente acabar na palma da mão. Ver que as coisas mais demoradas acabam de forma rápida. E este é o enigma da vida, claro às nossas visões obtusas que só enxergam suas próprias verdades.
Provar em que tempo convergimos é provar que somos fracos perante as nossas vontades. O medo do tempo dá força aos fortes e derrota os fracos. As pessoas se tornam corajosas mediante a necessidade de enfrentar o tempo que é mera presença natural e uma invenção do homem para conseguir as coisas no momento em que quiser. É quase perda de tempo dar conselho àqueles que precisam de tempo para viver, pois, para isso, é preciso vontade. E, para ter vontade, se gasta tempo.
Precisamos de tempo para degustar cada momento que a vida nos dá. Não para provar algo, dar satisfação para outrem. Mas compreender que o tempo não nos permite voltar atrás. Faz-nos ver que a vida corre em sentido horário junto com o tempo. Este pode nos nocautear a qualquer momento, mas, se quisermos, há como levantar. E, para isso, é preciso viver, mesmo que nos tome tempo.
A cada passo dado aparece alguma virtude que nos ensina a ter tempo para qualquer coisa que nos sobre, mesmo com pouco tempo para fazê-la. Embora haja quase nada, precisamos! E esperemos que o tempo passe. Somente.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Resenha: O crime por um fio, de Valéria Leal

São tantos os livros que conseguem nos prender atenção pelos mais variados motivos, e o fato de o livro ser baseado em fatos reais nos traz mais curiosidade acerca de seu conteúdo. Atrelado a este motivo, pode-se argumentar que o tipo de escrita contribui com o valor da obra em questão, além de outros apontamentos que devem ser levados em conta, como a descrição das ações e do cenário do enredo.
É deste modo que o livro O crime por um fio, de Valéria Leal, que nos prende a atenção. Publicado em 2016 pela editora Chiado, o livro trata sobre a criminalidade da sociedade atual, tendo como cenário a favela Planalto Central no Rio de Janeiro. A história tem como foco a forma como a ciência forense consegue desvendar os casos passados para a polícia, além de destacar 10 casos da vida real e como a perita Isadora Romanesky consegue desvendá-los a partir de seu trabalho na Agência Nacional de Inteligência (A.N.I.), recebendo apoio do jornalista Beto Lopes, do Jornal da Amanhã, em sua busca incessante por justiça.
O livro trabalha a realidade de uma maneira diferente abordando casos sobre diferentes assuntos, como assassinato, crimes passionais, crimes de milícias, máfias, empresas de fachadas envolvidas em desvios de dinheiro, de formação de quadrilha, corrupção passiva e ativa, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, entre outros. A obra destaca a importância de se combater a corrupção e serve como um suporte que, por meio de uma literariedade, discute acerca dos direitos civis, justiça e criminalidade com o objetivo de pedir o fim da corrupção na nossa sociedade.
Não há certa profundidade em todos os casos, embora se possa perceber uma literariedade bem elaborada em cada evento descrito ao longo de todo o livro, ao lado de uma analogia com a realidade, como o caso 8 (“Onde está Marivaldo?”), a partir do qual podemos lembra do ajudante de pedreiro Amarildo, desaparecido em 2013 na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.
Nascida em São Paulo, o fato de Valeria Leal ser fonoaudióloga e especialista com competência sobre criminologia forense de vestígios de arquivos digitais facilitou ainda mais a elaboração do livro, como podemos ver na descrição do caso 6 “sabia que ela tinha conhecimento da fala, voz e linguagem. Isadora tinha se formado em Ciências da Comunicação e se tornara especialista em voz”. E essa junção entre sua área e a literatura contribuiu para que a criação literária tivesse tanta qualidade, o que resultou no desenvolvimento do booktrailer da obra na cidade de São Paulo sob a direção de Wagner De Pintor e Pedro Barbosa. Podemos ver, então, que vale a pena a leitura da obra. Vendas online na Livraria Saraiva, Cultura, Amazon e no site da Chiado Editora.